Dois resultados nas urnas e um pregão de pânico
No domingo (25), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente com 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% de Flávio Bolsonaro (PL), com 99,9% das urnas apuradas, segundo o TRE-SP. No Distrito Federal, a governadora Celina Leão (PP) venceu Leandro Grass (PT) com 57,18% dos votos válidos, ou 987.142 votos, e segue no Palácio do Buriti por mais quatro anos.
O mercado financeiro reagiu já na abertura desta segunda-feira. O dólar comercial, que fechou a sexta a R$ 4,993, chegou a R$ 5,605 às 9h47, alta de 12,25%. A B3 acionou o circuit breaker às 9h57, o primeiro desde março de 2020, e às 11h26 o Ibovespa caía 17,26%, aos 169.681 pontos. O Tesouro cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação desta semana. Os detalhes estão na abertura do dia.
O Boletim Focus divulgado hoje ainda não captura a reação, porque foi coletado até sexta. Ele projetava IPCA de 5,19% em 2026, Selic de 13,25% no fim do ano e de 11,75% no fim de 2027. Na leitura da Capital Economics, citada pelo InfoMoney, cortes de juros nas duas reuniões restantes do ano ficaram menos prováveis, e o JP Morgan rebaixou sua recomendação para o real e para os títulos públicos brasileiros.
Brasília chega ao choque com preço em alta e aluguel abaixo da Selic
O ponto de partida do mercado do DF é forte. O Índice FipeZAP de setembro mostrou o metro quadrado de venda em Brasília a R$ 10.453, com alta de 0,81% no mês, 6,74% no ano e 9,80% em 12 meses, contra 5,51% do índice de 56 cidades e inflação de 4,45% no período. O recorte por região está na análise do m² de Brasília.
No aluguel, o preço médio pedido ficou em R$ 53,84 por metro quadrado, com queda de 0,53% em setembro e alta de 8,34% em 12 meses. A rentabilidade bruta ficou em 6,20% ao ano, menos da metade da Selic de 13,75%, conta que detalhei no fechamento de 22/10.
Onde o choque chega primeiro: na taxa do financiamento
O imóvel não tem cotação diária, mas o dinheiro que o financia tem. Na manhã de hoje, o DI para janeiro de 2028 foi de 12,825% no ajuste anterior para 14,295%, e o de 2031 subiu para cerca de 14,46%. São esses vencimentos longos que balizam o custo de captação dos bancos. Se a alta se mantiver por semanas, a tendência é que as tabelas do crédito imobiliário subam, num momento em que a poupança já vinha perdendo recursos, como mostrei no post sobre a saída de R$ 6,19 bilhões do SBPE.
Do lado do governo federal, a aposta declarada é no crédito direcionado. Segundo a Exame, na faixa de classe média do Minha Casa, Minha Vida, famílias com renda de até R$ 13 mil podem financiar imóveis de até R$ 600 mil, com juros nominais de 10% ao ano e prazo de até 35 anos. A própria reportagem lembra que crédito subsidiado sem aumento de oferta pode virar alta de preço. No DF, essa faixa conversa com boa parte dos lançamentos fora do Plano Piloto.
As incorporadoras sentiram o golpe na bolsa: Cyrela recuava 43,7% e MRV 42,3% no fim da manhã. A cotação não muda o contrato de quem comprou na planta, mas encarece o capital das empresas e pode reduzir o ritmo de novos lançamentos se o estresse durar.
Minha leitura
O risco está no crédito, não na demanda de Brasília
Diante disso, acredito que o efeito imediato da eleição sobre o imóvel do DF passa pelo custo do dinheiro. A demanda de Brasília tem uma base de renda ligada ao serviço público que não muda de um pregão para outro, e a continuidade tanto no governo federal quanto no GDF reduz a incerteza administrativa local. O que muda é a prestação.
Quem financia: trave a taxa e simule com folga
Avalio que quem já tem crédito aprovado deve formalizar a taxa o quanto antes. Quem ainda vai pedir deve simular a parcela com juro um a um ponto e meio acima da tabela atual. Se a conta só fecha no cenário otimista, o imóvel está acima do orçamento.
Quem compra à vista ganha poder de negociação
Com menos compradores financiados no curto prazo, acredito que o comprador com caixa passa a ter mais espaço para negociar, principalmente em imóveis usados que estão há meses no anúncio. A calculadora de valor do imóvel ajuda a testar o preço pedido antes da proposta, e o guia de ITBI do DF mostra quanto separar para a escritura.
Investidor: não compre pelo aluguel, compre pelo preço
Com aluguel rendendo 6,20% ao ano e juro futuro acima de 14%, avalio que comprar em Brasília só para viver de renda continua difícil de justificar. A tese do DF é valorização de longo prazo com entrada bem negociada. Para comparar com outras aplicações, uso a Carteira de Ativos.
Esta é uma leitura pessoal e informativa, não é aconselhamento financeiro.
O que todo mundo pergunta depois da eleição
A reeleição de Lula vai derrubar o preço dos imóveis em Brasília?
Não há dado que indique isso hoje. O último Índice FipeZAP, de setembro de 2026, mostra o m² de Brasília a R$ 10.453, com alta de 9,80% em 12 meses. O efeito imediato do resultado apareceu no câmbio, na bolsa e nos juros futuros; o preço do imóvel costuma reagir com meses de defasagem, pelo crédito.
O financiamento imobiliário vai ficar mais caro?
O risco aumentou. Na manhã de 26/10/2026, o DI para janeiro de 2028 subiu de 12,825% para 14,295%. Se essa alta se sustentar, encarece a captação dos bancos e tende a chegar às tabelas de financiamento. Contratos já assinados com taxa definida não mudam.
Vale comprar imóvel no DF agora ou esperar?
Depende do objetivo. Para quem compra para morar com crédito aprovado, travar a taxa reduz o risco. Para quem compra à vista, um mercado com menos compradores financiados tende a abrir espaço para negociar preço. Para quem compra para alugar, a rentabilidade bruta de 6,20% ao ano em Brasília segue abaixo da Selic.
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