Ninguém passou de 50%: são três semanas até o 25 de outubro
A última Datafolha antes do primeiro turno (28/09 a 01/10) apontava Lula com 45% e Flávio Bolsonaro com 40% dos votos válidos, e um segundo turno de 48% a 45%. Sem maioria absoluta, a decisão fica para 25 de outubro. Para o mercado imobiliário, acredito que isso significa três semanas em que a bolsa, o dólar e os juros futuros vão oscilar a cada pesquisa, enquanto os fatores que de fato definem o preço de um imóvel e o custo de um financiamento ficam parados.
2018 e 2022: muito barulho, pouco deslocamento
O período entre turnos tem um padrão: reação forte no dia seguinte ao primeiro turno, oscilação a cada pesquisa e, no fim, pouca mudança de nível. Veja os dois últimos ciclos.
| Momento | Ibovespa | Dólar |
|---|---|---|
| 2018 · 2 de outubro, reta final do 1º turno, pesquisa Ibope mostra Bolsonaro subindo | +3,8% no dia | -2%, a R$ 3,93 |
| 2022 · 3 de outubro, dia seguinte ao 1º turno (resultado mais apertado que o previsto) | +5,54%, a 116.134 pontos | -4,09%, a R$ 5,17 |
| 2022 · última semana antes do 2º turno (24 a 28/10) | -4,45% na semana | +2,97% na semana |
| 2022 · 28 de outubro, véspera do 2º turno | 114.539 pontos (-0,09% no dia) | R$ 5,30 (-1,76% no mês) |
Em 2022, o Ibovespa ganhou 5,5% num dia e devolveu 4,5% numa semana; o dólar caiu 4% num dia e, no acumulado do mês, recuou menos de 2%. Em 2026 o padrão já se repete antes mesmo da votação: a Forbes registrou movimentos de 1% a 3% nos pregões seguintes a cada pesquisa, "muitas vezes dentro da margem de erro" dos levantamentos.
Para o mercado imobiliário, a lição que eu tiro é direta. Nenhum desses movimentos chegou ao preço dos imóveis. Em 2018 as vendas cresceram apesar da eleição, e em 2022 o crédito imobiliário fechou o ano com o segundo maior volume da história (dados CBIC/Abecip). Penso que o que a eleição faz é adiar decisões, não mudar preços.
Um em cada três mexe no plano; a maioria segue em frente
Duas pesquisas de 2026 mostram o tamanho do "espera para ver" no mercado de imóveis:
- Loft/Offerwise (2.400 entrevistados, dez/2025–jan/2026): 35% das pessoas devem antecipar ou adiar a compra por causa da eleição, divididas quase ao meio (18% antecipam, 17% adiam). 55% mantêm os planos. Quem mais adia: pessoas acima de 55 anos (23%) e moradores do Sul (25%). Quem mais antecipa: jovens de 18 a 24 anos (26%) e classe A (28%). O Centro-Oeste aparece entre as regiões de maior indecisão.
- Grupo OLX (ZAP, Viva Real e OLX, abr/2026): 23% dos potenciais compradores dizem que a eleição influencia a decisão. Desse grupo, 42% passaram a procurar imóveis mais baratos, 27% aceleraram a compra e 23% esperam o resultado das urnas. Sobre preços, 49% esperam alta e 43% estabilidade.
Coriolano Lacerda, do Grupo OLX, acrescenta um dado do lado da oferta: "em ano de eleição presidencial, o próprio mercado costuma retrair o número de lançamentos". Diante disso, avalio que menos lançamento em 2026 significa menos estoque novo em 2027 e 2028, o que sustenta o preço no médio prazo. Um estudo clássico do Journal of Finance (Julio e Yook, 2012) mede o mesmo efeito nas empresas: o investimento cai, em média, 4,8% em anos eleitorais e volta depois que a incerteza passa.
O que, na minha leitura, muda e não muda entre os turnos
Não muda
- A Selic. Fica em 13,75% até a reunião do Copom de 3 e 4 de novembro, já com o resultado conhecido.
- A taxa do seu financiamento. Contrato assinado é taxa travada. Proposta aprovada no banco costuma valer por 30 dias ou mais: quem tem carta de crédito aprovada compra com a condição de hoje.
- O preço dos imóveis. O FipeZAP sobe cerca de 0,5% ao mês (0,46% em julho; 5,46% em 12 meses). Em três semanas, o preço de tabela não se move; o que se move é a margem de negociação.
- O orçamento do Minha Casa, Minha Vida de 2026 (R$ 178 bilhões) e as regras de transição do crédito imobiliário.
- Aluguel. Reajuste é por índice e data de contrato. Em Brasília, o aluguel subiu 17,7% em 12 meses (QuintoAndar/Imovelweb, jul/2026) por falta de oferta, não por eleição.
Muda (e oscila)
- Dólar e bolsa, a cada pesquisa. Afetam primeiro quem investe em fundos imobiliários e ações de construtoras, e o comprador de alto padrão que tem patrimônio em bolsa ou no exterior.
- Juros futuros. O DI de 2031 pagava 13,88% em setembro, acima da Selic. Se as pesquisas apontarem mudança fiscal, ele cai; se apontarem continuidade, sobe. As tabelas dos bancos seguem o juro futuro com defasagem de semanas, então o efeito na parcela só aparece depois do 2º turno.
- O humor do vendedor. Quem precisa vender e "esperou o primeiro turno" tende a ceder mais na negociação; quem não precisa, tira o imóvel do mercado. Resultado: menos oferta e vendedores mais polarizados.
- Promessas de campanha. Isenção de IR, jornada 6x1, corte de ministérios, Casa Verde e Amarela: nas três semanas, tudo isso é ruído. Vira política pública só em 2027, e só o que passar no Congresso.
- Lançamentos. Incorporadoras seguram feiras e lançamentos até 25 de outubro. Quem procura imóvel novo verá mais ofertas em novembro e dezembro.
Como eu agiria nas três semanas
Os dados acima são de terceiros. O que vem agora é a minha leitura, de quem está no mercado de Brasília e já atravessou os períodos entre turnos de 2018 e 2022 atendendo clientes.
1. Quem vai comprar: entre turnos é a melhor janela de negociação do ano
Menos concorrência, vendedor ansioso e oferta reduzida. Diante disso, acredito que outubro é o mês em que o vendedor que precisa vender aceita conversar sobre preço, porque parte dos compradores sumiu. Se a carta de crédito está aprovada e o imóvel é o certo, penso que você deve usar o período. Avalio o risco assim: se o resultado derrubar os juros em 2027, você faz a portabilidade; se não derrubar, você comprou nas condições que já conhecia, com desconto. Nos dois casos, saiu na frente.
2. Quem vai vender: não tire o imóvel do mercado, ajuste a estratégia
Comprador que está visitando imóvel em outubro de ano eleitoral é comprador decidido, e eu valorizo muito esse perfil. Minha orientação é manter o anúncio, aceitar visita e deixar claro o que é negociável. Retirar o imóvel para "voltar em novembro", na minha avaliação, significa voltar junto com todos os outros vendedores que pensaram o mesmo.
3. Quem investe em renda: a conta é a mesma de setembro
O aluguel em Brasília sobe por falta de oferta. Penso que nenhuma pesquisa de intenção de voto muda a vacância do Plano Piloto em três semanas. Para quem compara o imóvel com a NTN-B, acredito que o momento de olhar o juro futuro é depois de 25 de outubro, não a cada manchete. Até lá, avalio que as melhores relações aluguel/preço continuam em Taguatinga (9,7% ao ano) e Águas Claras (8,2%).
4. Quem vai alugar: feche agora, o reajuste não espera a eleição
Com o aluguel subindo 17,7% ao ano na cidade, acredito que cada mês de espera custa mais do que qualquer variação de cenário político. Contrato fechado em outubro trava o valor por 12 meses, com o resultado que for. É o conselho que dou a quem me pergunta se vale esperar.
5. Brasília: o que eu vou observar no dia 26 de outubro
Não é a bolsa. É o discurso sobre estrutura do governo. Avalio que a continuidade mantém a demanda do funcionalismo que sustenta o Plano Piloto, Sudoeste e Noroeste, e que um plano de corte de ministérios muda a conversa de renovação de contrato em 2027. Nos dois casos, penso que o efeito aparece em meses, não em dias, e é com esse prazo que eu planejo com os meus clientes.
Esta análise reflete a minha opinião profissional com base nas fontes citadas. Não é recomendação de investimento nem manifestação de preferência eleitoral.
Entre turnos
Devo esperar o 2º turno para comprar? Em três semanas o preço não muda e a Selic também não. O que muda é o humor do vendedor, e isso favorece quem compra agora. Se a carta de crédito está aprovada, a condição é a de hoje.
O que aconteceu com bolsa e dólar entre os turnos de 2022? Ibovespa +5,54% no dia seguinte ao 1º turno e -4,45% na última semana; dólar -4,09% no dia seguinte e +2,97% na última semana, fechando em R$ 5,30. No mês, o dólar caiu 1,76%.
Os juros do financiamento mudam até 25 de outubro? A Selic não. As tabelas dos bancos reagem ao juro futuro com semanas de atraso, então uma mudança relevante só apareceria depois do resultado.
Quantas pessoas adiam a compra por causa da eleição? 17% pretendem adiar e 18% antecipar (Loft/Offerwise); 23% dizem que a eleição influencia e, desses, 23% esperam as urnas (Grupo OLX).
Referências
- Datafolha, pesquisa para presidente de 28/09 a 01/10/2026 — Gazeta do Povo.
- Melhor Investimento, "Bolsa e dólar dispararam após o 1º turno de 2022; entenda a reação" — link.
- TNH1/Agência Brasil, "Dólar e bolsa ficam estáveis na última sessão antes do segundo turno", 28/10/2022 — link.
- Money Times, "Kit Bolsonaro dispara com reta final das eleições e Ibovespa salta 3,8%", 02/10/2018 — link.
- Forbes Brasil, "Eleições 2026: o empate técnico nas pesquisas e a aposta que o mercado já colocou no preço", 24/09/2026 — link.
- Forbes Brasil, "Selic a 13,75% marca o fim do ciclo?", 16/09/2026 — link.
- Portas, "1 em cada 3 brasileiros deve antecipar ou adiar troca de imóvel por causa das eleições" (Loft/Offerwise), 27/01/2026 — link.
- Exame, "Brasileiros buscam imóveis mais baratos em meio à incerteza das eleições" (Grupo OLX), 14/06/2026 — link.
- Portas, "Eleições e mercado imobiliário: por que a hesitação pode custar caro", 21/07/2026 — link.
- Times Brasil, "Alta no preço dos imóveis residenciais supera inflação e atinge 5,46% em 12 meses" (FipeZAP jul/2026), 05/08/2026 — link.
- Metrópoles, "De olho na reeleição, governo Lula turbina recursos do MCMV em 2026", 24/01/2026 — link.
- Calendário do Copom 2026 — AMDJUS.
- Índice QuintoAndar/Imovelweb (jul/2026) e rendimento por bairro, no Guia de Brasília deste site.
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