Metade do mundo constrói na China — e o Brasil tem uma empresa na lista
A Deloitte publicou a nona edição do Global Powers of Construction, que ranqueia as 100 maiores construtoras de capital aberto do planeta. Somadas, elas faturaram quase US$ 2 trilhões em 2025 — cerca de R$ 10 trilhões —, 0,4% menos que em 2024.
- Valor de mercado somado: subiu de US$ 797,4 bilhões para US$ 892,7 bilhões, alta de 12%.
- Produção global da construção: −0,2% em 2025, com previsão de +1,5% em 2026 e média de 5,9% ao ano até 2030.
- A líder: a chinesa CSCEC fatura sozinha US$ 289,7 bilhões.
- Empresas por região: Europa 40, Japão 14, Estados Unidos 14.
O ranking é uma fotografia de quem constrói. Mas por trás de cada bloco há um mercado imobiliário andando em direção diferente — e é aí que a conversa fica útil para quem compra.
O gigante que está desconstruindo
A China é quase metade do ranking e é o único bloco em contração clara. Os dados oficiais de janeiro a julho de 2026 mostram o tamanho da retração:
- Investimento imobiliário: RMB 4,301 trilhões, −19,2%
- Novos inícios de obra: 267 milhões de m², −24% (residencial −24,6%)
- Vendas de imóveis novos: 450,21 milhões de m², −11,8% em área e −13,1% em valor
- Captação das incorporadoras: RMB 4,575 trilhões, −20,3%. Empréstimo bancário doméstico, −32,1%
No preço, em julho de 2026, 47 das 70 cidades monitoradas tiveram queda mensal no imóvel novo. No usado é pior: 62 das 70 caíram. Em 12 meses, cidades de terceira linha acumulam −4,2% no novo e −5,8% no usado.
Saldo: negativo nos dois lados. O residencial chinês está em deflação há anos e o comercial sofre junto, porque a mesma incorporadora que não vende apartamento também não entrega laje. O estoque de imóvel pronto e não vendido é de 759 milhões de m². A lição para quem olha de fora é a de sempre: oferta construída na expectativa de demanda futura vira preço caindo por muito tempo.
Escritório se recuperando, casa travada, data center explodindo
Os americanos são o caso mais interessante porque os três mercados andam em direções diferentes ao mesmo tempo.
Escritório: melhor do que a manchete sugere
No terceiro trimestre de 2026, segundo a CBRE, a vacância ficou em 18,2%, quinto trimestre seguido de queda. No segmento prime são 11,9% — e em Midtown Manhattan, apenas 1,9%. A absorção líquida é positiva pelo décimo trimestre consecutivo e o aluguel pedido subiu 3,1%, o ritmo mais rápido desde 2016.
Agora o dado que explica tudo: as entregas de prédios novos caíram 76% no trimestre, e o ano caminha para o menor volume desde 1990. A vacância está caindo não porque a demanda explodiu, mas porque pararam de construir. É o escritório bom que está escasso; o escritório ruim continua encalhado.
Residencial: travado pelo juro
O financiamento de 30 anos está em 7,32% ao ano. Na Flórida isso aparece como estoque: Miami-Dade tem 12,3 meses de apartamento à venda, a casa isolada subiu 4,06% (US$ 692 mil) enquanto o apartamento cedeu 0,69% (US$ 417.090). Orlando está de lado, com mediana de US$ 399.610 e hipoteca a 7,4%. No sul da Flórida, 59% das compras acima de US$ 1 milhão são à vista — porque quem depende de financiamento saiu do jogo.
Data center: o novo canteiro
O Bank of America projeta que os gastos globais com data centers passem de US$ 1 trilhão em 2026 para US$ 2,1 trilhões em 2028, com crescimento médio de 37% ao ano até 2030, a um custo de cerca de US$ 49 milhões por megawatt.
Saldo: misto. Positivo no escritório de alto padrão e na infraestrutura digital, negativo no residencial e no condomínio da Flórida enquanto a hipoteca não ceder.
A virada veio do orçamento público
A Europa é o bloco que mais melhorou. As construtoras europeias tiveram receita +9% em moeda local e ganharam US$ 104 bilhões em valor de mercado em 2025 — enquanto as americanas perdiam US$ 29 bilhões.
- Produção na UE em 2026: +1,5%, depois de cair 1,5% em 2024 e ficar estagnada em 2025
- Residencial: licenças para novas moradias +26% até setembro de 2025
- Alemanha e Espanha: +2,5%, as que mais crescem. França e Países Baixos, +0,5%
- Alemanha: fundo de € 500 bilhões para infraestrutura e clima — mas os projetos só devem chegar ao mercado depois do fim de 2026
- Escritório: licenças para prédios novos caíram mais de 30% contra 2022
Há um detalhe que explica a resiliência europeia: as construtoras do continente tiram 67% da receita fora do país de origem — a espanhola ACS, 91,8%. Elas não dependem de um único ciclo de crédito.
O espelho invertido dos Estados Unidos
Se os EUA são o caso de escritório sobrando, o Japão é o oposto: a vacância de escritórios em Tóquio é de 1,6% no geral e 0,7% na Classe A. O apartamento usado na Grande Tóquio custa, em média, ¥ 54,58 milhões (¥ 856.100 por m²), com alta de 9,5% em um ano. O terreno residencial nos 23 bairros subiu 9,0% em 2026, e 13,0% nos cinco bairros centrais. Tóquio é a cidade nº 1 do mundo em investimento imobiliário transfronteiriço pelo sétimo ano seguido.
Saldo: positivo nos dois mercados, puxado por juro ainda baixo, iene fraco e oferta estruturalmente restrita.
A única no top 100 — e o que o juro fez com ela
A MRV é a única brasileira na lista, em 92º lugar, com US$ 1,951 bilhão de receita em 2025, alta de 16,7% em dólar. Em reais, o retrato completo é mais revelador:
Vendeu mais, construiu mais, melhorou a margem operacional — e perdeu dinheiro assim mesmo. O que ficou no caminho foi o custo da dívida com a Selic em 13,75%. Para dar escala: a chinesa CSCEC fatura cerca de 148 vezes o que fatura a maior construtora brasileira do ranking.
No comercial, o Brasil está do lado bom
Em São Paulo, segundo a CBRE, até setembro de 2026 a vacância caiu para 15,5% (12,8% no Triple A), com absorção bruta recorde de 684 mil m² em nove meses, 23% acima da média histórica. Pinheiros caiu 4,5 pontos de vacância, para 9,9%; Faria Lima e JK estão em 7,9%. O Triple A respondeu por 60% de toda a absorção.
No residencial, Brasília fechou setembro com o m² a R$ 10.453 e alta de 9,80% em 12 meses; São Paulo, a R$ 12.206 com +3,64%.
Três regras que se repetem nos cinco mercados
- Onde a obra depende de crédito privado caro, ela trava. China, residencial americano e balanço das construtoras brasileiras contam a mesma história com sotaques diferentes.
- Onde entra dinheiro público ou dinheiro de IA, a obra anda. O fundo alemão de € 500 bilhões, a infraestrutura europeia e os data centers americanos são hoje os únicos motores com fôlego.
- Escritório bom está escasso em quase todo lugar; escritório ruim não volta. Midtown a 1,9%, Tóquio a 0,7%, Faria Lima e JK a 7,9% — e, ao mesmo tempo, vacância geral de 18,2% nos EUA. Não é um mercado só: são dois, dentro do mesmo prédio-tipo.
Minha leitura
1. O que separa quem atravessa o ciclo é ter receita em mais de uma moeda
A primeira coisa que esse ranking me diz não é sobre a China. As europeias tiram dois terços do faturamento fora de casa e por isso cresceram 9% num ano em que o setor global encolheu. A construtora brasileira vende no Brasil, financia no Brasil e sofre no Brasil. Quando a Selic vai a 13,75%, não existe receita em euro para amortecer. Foi exatamente isso que aconteceu com a MRV: R$ 1 bilhão de despesa financeira num ano de receita recorde.
2. Incorporadora apertada negocia — e também atrasa
Para quem vai comprar em Brasília ou em São Paulo nos próximos meses, isso tem duas leituras opostas, e as duas são verdadeiras. Quem chega com entrada forte ou à vista tem poder de barganha real em 2026 — eu tenho visto isso na mesa, não só no balanço. Mas incorporadora apertada também corta custo, atrasa obra e empurra entrega. É quando o juro aperta que a diferença entre uma incorporadora sólida e uma alavancada vira atraso na sua chave.
3. Pergunte pelo patrimônio de afetação antes de perguntar pelo desconto
O desconto você consegue de qualquer jeito neste ciclo. A obra entregue, não. A Lei 10.931/2004 separa o seu empreendimento do caixa da incorporadora: se a empresa quebrar, a obra afetada não vai junto. Confira na matrícula, e olhe a SPE do empreendimento, não a marca.
4. Na Flórida a lógica se inverte
Em Miami e em Orlando o problema não é o balanço de quem constrói — é o estoque. São 12,3 meses de apartamento parado em Miami-Dade e um Orlando andando de lado. Dois mercados com o mesmo sintoma, poder de barganha do comprador, por motivos opostos: aqui por custo de dívida, lá por excesso de oferta.
5. A oportunidade que quase ninguém está olhando
Laje corporativa de alto padrão em São Paulo. Absorção recorde, Triple A fazendo 60% do volume, Pinheiros caindo 4,5 pontos de vacância em nove meses e quase nenhum prédio novo entrando — o mesmo roteiro que levou Midtown Manhattan a 1,9%. Quem entrar nesse ativo antes da virada do ciclo de juros vai ver o aluguel subir antes do preço.
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