DC Daniel CarvalhoImobiliário
Vista aérea de prédios residenciais à beira-mar na Flórida
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Sete brasileiros eleitos nos EUA e as três leis da Flórida que decidem o retorno do seu imóvel

Sete brasileiros viraram deputados estaduais nos Estados Unidos. A notícia boa não é a que parece: é que ela mostra onde ficam as réguas que mexem no custo do seu imóvel — e a Flórida, com 134 mil brasileiros, elegeu um.

O fato

Sete brasileiros viraram deputados estaduais nos Estados Unidos

Nas eleições de meio de mandato, sete brasileiros foram eleitos para câmaras estaduais americanas. Todos pelo Partido Democrata, em quatro estados: quatro em Massachusetts e um em cada um de Connecticut, Nevada e Flórida.

  • Felipe Sousa-Lazaballet, Flórida. Nascido em Duque de Caxias, chegou aos 14 anos, recebeu autorização de trabalho pelo DACA aos 26 e virou cidadão em 2021. Trabalhou cinco anos na administração da prefeitura de Orlando. 40 anos, primeira disputa eleitoral
  • Priscila Sousa, Massachusetts, 6º distrito de Middlesex. Nascida em Ipatinga, chegou aos 7 anos e cresceu em Framingham. No cargo desde 2023
  • Rita Mendes, Massachusetts, Brockton. Nascida em Conselheiro Pena, chegou em 2002 sem falar inglês. Vereadora em 2019, deputada desde 2023. Advogada e corretora de imóveis
  • Danillo Sena, Massachusetts. Nascido em Timbaúba, chegou aos 14 anos em 2001. Beneficiário do DACA, obteve green card e cidadania em 2018. No cargo desde junho de 2020
  • Lorena Betts, Massachusetts, 16º distrito de Middlesex. Nascida no Mato Grosso, 15 anos nos Estados Unidos. Foi enfermeira no Brasil e babá nos Estados Unidos antes de estudar Ciência Política
  • Farley Santos, Connecticut, 109º distrito, Danbury. Reeleito, no cargo desde 2023. Chegou aos 7 anos e viveu como indocumentado
  • Elaine Marzola, Nevada, 21º distrito. Nascida no Rio, chegou a Las Vegas em 1984. No cargo desde 2021, na terceira reeleição, com posição de liderança na assembleia

Até aqui é a notícia. O que me interessa começa quando a gente põe o número de brasileiros ao lado.

O dado

A assimetria que ninguém comentou

137.449brasileiros em Massachusetts · 4 eleitos
134.807brasileiros na Flórida · 1 eleito
30.065brasileiros em Connecticut · 1 eleito
4.732brasileiros em Nevada · 1 eleita

Massachusetts e Flórida têm praticamente a mesma população brasileira. Massachusetts elegeu quatro; a Flórida, um. E Nevada, com trinta vezes menos brasileiros que a Flórida, elegeu uma deputada que está na terceira reeleição e ocupa cargo de liderança.

Isso não é sobre partido. É demografia, e a explicação é desconfortável: comunidade de moradores elege; comunidade de investidores não.

A comunidade de Massachusetts é mais antiga, mais naturalizada e concentrada — Framingham tem 6,6% de nascidos no Brasil, com núcleos densos em Somerville e Brockton. A da Flórida é mais nova, espalhada entre Broward, Miami-Dade e Orange, e tem proporção alta de proprietário que não vota: ou porque não é cidadão, ou porque nem mora lá.

Resultado: o brasileiro proprietário na Flórida é hoje um dos maiores grupos brasileiros dos Estados Unidos com a menor representação estadual. E isso importa por um motivo técnico, que é o resto deste post.

O mecanismo

O que um deputado estadual controla — e o que não controla

A maior parte dos brasileiros que compra nos Estados Unidos acha que o risco é federal: visto, FIRPTA, imposto de renda, juro, regra de financiamento para estrangeiro. Está certo que isso é federal, e nenhum desses sete deputados mexe nisso.

Mas as regras que de fato determinam quanto custa carregar o seu imóvel são estaduais:

  • Lei de condomínio, inspeção estrutural e reserva obrigatória
  • Seguro residencial, incluindo a seguradora pública
  • Direito do município de restringir aluguel de curta temporada
  • Relação locador-inquilino: prazo de despejo, depósito, aviso prévio
  • Imposto sobre a propriedade, isenção de homestead e teto de reajuste

E tem uma assimetria que pouco se explica ao comprador brasileiro: o investidor que não mora no imóvel não recebe a isenção principal de homestead, e o teto de reajuste do imposto aplicado a ele é mais frouxo que o do residente. Isso é decidido no estado.

Vamos às três que mais pesam na Flórida hoje.

Lei 1

Condomínio: ainda aperta, e o alívio tem data de validade

Depois do desabamento em Surfside, a Flórida criou obrigações de inspeção estrutural e de reserva que mudaram a conta de quem tem condo no estado.

  • O estudo de reserva estrutural precisa estar concluído, e em nenhum caso depois de 31 de dezembro de 2026
  • A inspeção de marco é devida até 31 de dezembro do ano em que o prédio completa 30 anos, e depois a cada 10; o órgão local pode exigir aos 25 anos em prédio costeiro. Reparos da fase dois precisam começar em até 365 dias após o relatório
  • O condomínio pode pausar ou reduzir o aporte de reserva por no máximo dois orçamentos consecutivos — e isso só vale para orçamentos aprovados até 31 de dezembro de 2028
  • Se o rateio subir acima de 115% do ano anterior, a diretoria é obrigada a aprovar também um orçamento substituto sem gastos discricionários

Repare na terceira linha, porque é a que quase ninguém conta: a pausa de reserva é temporária e acaba em 2028. Quem comprar um condo contando com a taxa de condomínio atual precisa perguntar se aquele prédio está com a reserva pausada — porque, se estiver, a taxa vai subir quando a pausa cair.

E um detalhe que mostra por que acompanhar a assembleia importa: o pacote que mexeria nessas regras este ano, o HB 657, passou na Câmara por 108 votos a 2 em 5 de março e morreu no Senado oito dias depois. Ou seja, nada mudou em 2026 — por oito dias.

Lei 2

Seguro: essa melhorou, e é contra o que todo mundo repete

O discurso de que seguro na Flórida só sobe parou de valer. A Citizens, a seguradora pública do estado, aprovou para 2026:

−8,8%no seguro residencial multirrisco
−5,5%no wind-only
−2%no mínimo, para linhas pessoais
336 milapólices, contra 1,41 milhão em 2023

A vigência é em 1º de julho para apólice nova e na renovação para quem já tem. E há um número que explica a mudança melhor que a queda em si: a carteira da Citizens caiu de 1,41 milhão de apólices em outubro de 2023 para 336 mil, uma queda de 76%. Isso significa que o mercado privado voltou a aceitar risco que antes só o estado aceitava. Para quem compra agora, é mais opção de seguradora e menos dependência da pública.

Eu não diria que o problema de seguro da Flórida está resolvido. Diria que ele deixou de ser o argumento mais forte contra comprar lá — e quem desistiu de comprar em 2023 por causa de seguro deveria refazer a conta com o número de 2026.

Lei 3

Curta temporada: sua tese se apoia numa data de 2011 e num veto

Essa é a que mais me surpreendeu ao conferir.

A lei estadual proíbe o município de banir aluguel de curta temporada e de limitar duração ou frequência. Só que essa proteção não alcança as regras municipais que já estavam em vigor em 1º de junho de 2011. Por isso Miami Beach e Key West conseguem proibir em certas zonas, e cidades que criaram regra depois não conseguem.

O que o município pode exigir: registro, alvará, inspeção, regra de ocupação e vaga, controle de ruído e lixo, responsável local, comprovação de licença estadual.

O que não pode, se a regra for posterior a 2011: banir, exigir estadia mínima ou limitar número de locações por ano.

O projeto que centralizaria tudo no estado, o SB 280, passou no Senado por 23 a 16 e na Câmara por 60 a 51 em 2024 — e foi vetado pelo governador em 27 de junho de 2024. Desde então nada equivalente virou lei.

E no mapa prático de Orlando: Orange e Osceola têm livros de regra diferentes, com Osceola concentrando boa parte do mercado de casa de férias. Na tributação, são 6% de imposto estadual sobre locação de até seis meses mais o imposto de turismo do condado, que é de 6% em Orange e Osceola — cerca de 12% a 13% somados. A licença estadual de vacation rental é exigida quando o imóvel inteiro é alugado por menos de 30 dias mais de três vezes por ano.

Ou seja: a legalidade da sua operação de curta temporada hoje descansa sobre uma data de 2011 e um veto de 2024. As duas coisas foram decididas em Tallahassee.

Minha leitura

1. A lição útil não é sobre os sete, é sobre onde olhar

Eu avalio que o brasileiro que compra na Flórida acompanha o Fed e ignora a assembleia estadual — e está vigiando a variável errada. Juro mexe no financiamento; lei estadual mexe no condomínio, no seguro e em saber se você pode alugar por três dias. Nos últimos dois anos, quem perdeu dinheiro com condo em Miami perdeu por decisão de Tallahassee, não de Washington.

2. Não espere que deputado brasileiro trabalhe para investidor brasileiro

Prefiro dizer isso com clareza: deputado estadual representa o eleitor do distrito dele, não o proprietário estrangeiro. Vários desses sete vêm de atuação em comunidade imigrante, e a agenda provável deles é proteção ao inquilino e serviço ao imigrante — o que pode andar contra o interesse do locador. Quem comemorar isso como vitória automática para quem investe vai se decepcionar.

O ganho real é outro e é mais modesto: gabinete que atende em português em Orlando, Danbury, Framingham e Las Vegas. Com a ressalva de que atendimento ao eleitor pressupõe ser eleitor, e o investidor não residente não é.

3. Sete eleitos é indicador de profundidade de mercado, e isso vale mais

Penso que o sinal mais útil da notícia é econômico. Eleger representante é indicador atrasado de que a comunidade atingiu tamanho, permanência e integração. Para quem compra para alugar, isso significa comércio, escola, igreja e serviço em português — o que sustenta demanda de locação e liquidez de revenda nesses micromercados. Framingham, Brockton, Danbury, Orlando e Las Vegas são onde o imóvel voltado ao inquilino brasileiro tem a base mais funda.

4. A pergunta que eu faria antes de assinar um condo na Flórida

Uma só: a reserva deste prédio está pausada? Se estiver, a taxa de condomínio que te mostraram tem prazo, porque a pausa só vale para orçamento aprovado até o fim de 2028. Junto com isso, eu pediria o estudo de reserva estrutural — que, por lei, tinha de estar concluído até o fim deste ano.

5. Para Miami e para Orlando, a conclusão é diferente

Em Miami o ponto crítico é condomínio e idade do prédio: inspeção aos 30 anos, ou aos 25 no costeiro, com reparo obrigatório em 365 dias. Prédio antigo à beira-mar é onde a conta estoura.

Em Orlando o ponto crítico é zoneamento de curta temporada, e a diferença entre Orange e Osceola pode decidir se o seu imóvel rende ou não. Eu checaria o condado e a regra da rua antes de olhar planta.

Dúvidas frequentes

Perguntas que me fazem sobre isso

Ter deputado brasileiro ajuda quem compra imóvel nos EUA?

Indiretamente e de forma limitada. Ajuda a ter gabinete que atende em português e sinaliza comunidade madura, o que sustenta aluguel. Mas deputado representa eleitor do distrito, não proprietário estrangeiro, e a agenda de vários deles é proteção ao inquilino.

O que eu devo acompanhar, então?

A assembleia estadual da Flórida em três temas: regra de reserva de condomínio, seguro residencial e curta temporada. São esses três que mexem no seu custo. Juro e imposto federal importam, mas você já os acompanha.

Seguro na Flórida ainda é um problema para comprar?

Menos que em 2023. A Citizens aprovou queda média de 8,8% no multirrisco para 2026, e a carteira dela caiu 76% desde outubro de 2023, o que indica mercado privado reabsorvendo risco. Não está resolvido, mas deixou de ser o argumento mais forte contra.

Posso alugar por temporada em qualquer cidade da Flórida?

Não. Depende de a cidade ter regra anterior a 1º de junho de 2011. Onde tinha, como Miami Beach e Key West, a proibição por zona vale. Onde não tinha, a cidade não pode banir nem exigir estadia mínima — mas pode exigir registro, responsável local e licença estadual.

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